Os netos de Ondina

Por Carolina Amaral

Criados dentro do salão, Rodrigo e Ricardo Gimenes sempre estiveram envolvidos nos negócios da família, mesmo que indiretamente. Quando o Monalisa surgiu, em 1980, os dois eram pequenos e moravam com a família no casarão. A matriarca, Ondina Paes, fundadora do salão, resolveu montar o negócio na casa em que moravam, uma prática muito comum à época. Assim foi feito. Na parte da frente do casarão foi inaugurado o salão de beleza, enquanto nos fundos morava a família. Ricardo, o irmão mais velho, lembra que “tinha um quintal no antigo casarão, onde as crianças ficavam brincando, enquanto o salão funcionava normalmente”.

Todos os dias os irmãos voltavam da escola e iam direto para o salão, pois além da avó, Ondina, os pais de Rodrigo e Ricardo também trabalhavam na empresa, o que fazia com que os dois, mesmo pequenos, participassem do negócio da família.

A inserção dos familiares no ramo da beleza aconteceu pelo fato da avó ter, desde 1960, uma escola voltada para essa área. Na instituição, que existe até hoje com o nome Academia de Beleza Ondina, eram oferecidos cursos de cabelo e estética, a fim de promover o conhecimento no setor. A matriarca começou a levar os membros da família para participarem das aulas e, com o tempo, eles se envolveram na área.

Dono e cabeleireiro do salão, Rodrigo Gimenes é responsável pela produção de penteados e cortes de cabelo. Foto: Carolina Amaral

Entre as tesouras e os secadores do salão, aos 16 anos Rodrigo começou a se encantar pela arte de cortar cabelos e, pela facilidade de acesso à escola da avó, passou a fazer um curso de cabeleireiro. “Eu estava ali durante a noite, não fazia nada, não estava estudando. Então decidi fazer um curso e comecei a gostar, a me interessar, e intensifiquei as aulas”, relembra Rodrigo. O neto passou a se envolver cada vez mais com a área de beleza ao ponto de largar o seu primeiro emprego e se dedicar em tempo integral aos cursos da escola de sua avó.

Vendo o real interesse do neto na área, a avó Ondina arrumou um emprego para Rodrigo em um outro salão, para que colocasse em prática todos os ensinamentos que estava aprendendo. Foram dois anos trabalhando nesse salão antes de ir para o da família.

Na época, o Monalisa estava ligado à escola e ambos funcionavam no mesmo prédio. Durante a semana eram dadas as aulas e, aos sábados e domingos, os profissionais e professores atendiam no salão. Isso mudou com a chegada do Rodrigo. Quando ele voltou para trabalhar no Monalisa, a avó resolveu separar o salão, para que ele pudesse funcionar durante toda semana. Dessa forma, em 1996, o salão Monalisa passou a atender em uma outra casa. A partir daí Rodrigo passou a participar oficialmente do negócio da família. 

Tempos difíceis

Enquanto isso, o Ricardo buscava outras oportunidades de trabalho. Decidiu então estudar Processamento de Dados, ond

Ricardo Gimenes na barbearia do Salão Monalisa, espaço voltado para os cuidados masculinos. Foto: Carolina Amaral

e trabalhou na área por 15 anos. Em 2001, por conta da necessidade da família, deixou o emprego para cuidar da parte administrativa do salão. Naquele momento os negócios não iam bem para a matriarca. “A escola já estava desaparecendo, quase não existia mais, era uma das piores concorrentes da cidade, sendo que já foi a melhor de todas”, revela Ricardo. Isso aconteceu por conta de problemas financeiros, que consequentemente levaram à falta de estrutura e de funcionários, o que criou um ciclo vicioso que fazia com que a escola se afundasse cada vez mais.

A saída foi procurar ajuda. Por acreditar no trabalho da avó, um empresário que a conhecia doou uma nova escola para ela, o que reergueu as esperanças da família. Com a estrutura renovada, em um novo endereço, começaram a trabalhar e os negócios melhoraram.

Na época, o Monalisa era um salão simples, nada parecido com o que é hoje. Para ampliar suas instalações e assim crescer no setor, a família resolveu mudar a localização do salão. Nesse período de transição, a opção foi levar o salão para uma casa tombada pelo patrimônio histórico, o que trouxe problemas para a família. O espaço do salão, que antes era pequeno, com a mudança de localização, ficou enorme. “Era uma casa maravilhosa, mas tinha as dificuldades de ser um patrimônio tombado e ter que tomar cuidado com as questões de reforma” relembra Ricardo.

Foram precisos sete meses de obras para que a estrutura ficasse de acordo com o que era necessário. As mudanças geraram muitos custos e, durante esse período, a escola manteve o salão, com a ajuda dos irmãos. “Tudo a gente vendia. Precisava reformar o salão, a gente vendia o carro”, revela Ricardo. Foram anos de sacrifícios, com prejuízos no caixa todos os meses. Mesmo com as dificuldades, os irmãos contam que nunca pensaram em desistir, pois acreditavam nas empresas da família. “A escola, por exemplo, sempre foi um negócio muito diferente. É uma das principais escolas do Brasil. A gente sabia que não tinha nada parecido”, conta Rodrigo.

Os irmãos tem muitos planos para o salão, a ideia é que o Monalisa se desenvolva e cresça cada vez mais. Foto: Carolina Amaral

Toda a dedicação valeu a pena. Depois de mudarem de endereço mais uma vez e reorganizarem as estruturas e as finanças, tanto o salão Monalisa quanto a Academia de Beleza Ondina se tornaram instituições renomadas e de referência. A figura dos dois irmãos e da fundadora, Ondina Paes, foram fundamentais nesse processo. A história de altos e baixos, que começou em Franca, na fazenda da família, com uma garota de 14 anos que via na beleza uma paixão, pode ser vista como um exemplo de sucesso. Até hoje os irmãos são reconhecidos por serem netos de Ondina Paes. “A importância da minha avó para a nossa área, principalmente para a educação, é algo enorme. Todo mundo a conhece. Você vai lá no Amazonas, uma pessoa vai falar dela. Você vai pro Sul e ouve alguém falar também. Meu nome não é Rodrigo, é Rodrigo neto da Ondina”.